A difícil tarefa de ser um cidadão comum – parte 3
Continuação do tópico A difícil tarefa de ser um cidadão comum – parte 2
Foi quando em agosto de 2008 a simpática Suzana (nome fictício) entrou em contato. Perguntou como gostaria de pagar o valor de R$ 2.845,26. Expliquei a ela que o valor devido era de R$ 660,00 e não pagaria aquele valor cobrado. Poderia me ligar todos os dias. Não aceitaria nunca aquele valor. Até que em outra ocasião ela ofereceu um valor um pouco mais abaixo. Não me recordo exatamente qual, mas ainda não era o ideal; o justo. Para acabar com aquelas negociatas, abri meu coração para Suzana:
- Se você gerar um boleto de R$ 700,00, pagarei à vista.
E a adorável Suzy respondeu surpresa:
- Jura, senhor? Ok. Entrarei em contato com minha supervisora e lhe retornarei o mais breve possível. Um bom dia.
Como já estávamos em 2008 e o valor cobrado era de 2005, imaginei que R$ 40,00 de juros era algo bem aceitável. Menos de 10% de aumento no valor total. Pensei que nunca mais receberia um telefonema da pontual Suzy, mas, no dia seguinte, ela me retornou avisando que o valor foi aceito e solicitando meu e-mail para enviar o acordo, juntamente com o boleto.
- Senhor, este valor de R$ 700,00 deve ser pago até o dia 15 de setembro próximo. Do contrário, o acordo não terá mais validade.
- Ok, Suzana. E, depois de pago, quanto leva para a retirada de meu nome dos serviços de proteção ao crédito – respondi retruncando.
- No máximo 5 dias úteis.
E eu, obviamente, acreditei. No dia marcado, realizei o pagamento do boleto e enviei o comprovante por e-mail para a querida e eficaz Suzana que, por sua vez, respondeu serelepe informando:
Bom dia!
Venho informar que o pagamento já consta no sistema.
Grata pela confirmação do pagamento (via e-mail)
Dúvidas à disposição,
Atenciosamente,
Suzana
Excelentes notícias. Corri para a folhinha do calendário para fazer as contas. Paguei no dia 15, no dia 16 já constava no sistema… 5 dias úteis… dia 23! Sim, claro. Pelas minhas contas, no dia 23 de setembro tudo já estaria resolvido. Dei uma semana de lambuja para o processo de retirada que, segundo a eficiente Suzy, era “simples e descomplicado”. Somente no dia 30 realizei a verificação. E, para minha surpresa – ou não? -, meu nome lá ainda estava.
Primeiramente, pensei que pudesse ser algum problema com o serviço do CCFácil. A atualização da base deles poderia ser semanal ou mensal. Mas informaram que a consulta é diretamente na base da Serasa. Entrei em contato com a prestativa CreditOne. Ninguém conseguia realizar uma transferência para a simpática Suzana e todos com que falei disseram que era estranha a situação, que o nome não deveria mais constar em nenhuma base de dados de proteção ao crédito por conta deste problema.
Na oitava ou nona ligação pediram que entrasse em contato com a Credicard. Liguei para esta renomada empresa que pediu para que eu ligasse para o “Serviço Especial de Atendimento a Cobrança”. Enquanto o polido atendente ditava o número, reconheci aonde ia chegar. Interrompi e perguntei:
- Este número, por um curioso acaso, é da CreditOne?
- Sim, senhor. Eles resolvem este tipo de situação.
- Mas foram eles que solicitaram que eu entrasse em contato com vocês. O pagamento já foi efetuado.
- Esta situação somente com eles. Senhor, gostaria de anotar o número do protocolo de atendimento?
- O atendimento já acabou?
- Algo mais em que possa ajudar?
- Não.
Depois deste infrutífero diálogo e outras tentativas de resolver por telefone, enviei um e-mail a fugaz Suzana:
Suzana, bom dia.
Meu nome ainda consta como devedor no Serasa. Você saberia informar em quanto tempo haverá esta atualização?
Seguem dados da consulta realizada:
QUANTIDADE: 1
PERIODO DE: 02/2005 ATE 02/2005
ULTIMAS OCORRENCIAS (ATE 3):
DATA NATUREZA PRACA UF NOME VALOR P SUBJ
15/02/2005 CRED CARTAO SPO SP CREDICARD R$ 660,00 S N
P = PRINCIPAL, SUBJ = DIVIDA SUB JUDICE
Muito obrigado.
Isto foi em 29 de outubro de 2008. O pagamento já havia sido realizado há mais de um mês. Um mês! Várias seqüências de 5 dias úteis já haviam acontecido. A solícita Suzana encaminhou o e-mail para sua supervisora operacional, Marcela (nome fictício). Esta nova personagem do nosso drama respondeu ao e-mail no mesmo dia:
Boa Tarde,
O sr. poderia me informar o seu CPF para que eu entre em contato com o Credicard.
No aguardo,
Marcela.
Enfim, respondi no mesmo dia – em menos de 1 hora – informando o número do CPF, apesar de ser um dado que eles já possuíam. Não tive mais respostas por um tempo. Tentava falar com Suzana ou Marcela pelo menos 2 vezes por semana. Sempre sem sucesso. E a CreditOne deve utilizar planilha Excel como sistema de atendimento. Não informavam nenhum número de protocolo. O direcionamento do atendente era pedir que o nome dele fosse anotado juntamente com data e hora. Os e-mails também pararam de ser respondidos.
Como sou cliente do Citibank (espero que não mais por muito tempo), tentei até conversar diretamente com o meu gerente de relacionamento. Foi um dos maiores arrependimentos que eu tive. O sagaz senhor Roberto (nome fictício) teve a coragem de dizer que ia ser difícil ajudar em alguma coisa, já que na época no ocorrido a Credicard não possuía nenhum vínculo com o Citibank. Quer dizer, para cobrar o valor devido, o contrato vem escrito que o cartão é “Credicard Citi”. Para ajudar em alguma coisa, não existe vínculo. Tá certo, Roberto.
Aquilo havia me revoltado o âmago. Estas empresas não exitam em colocar as pessoas nos serviços de proteção ao crédito. Estava passivo demais. Resolvi entrar com uma ação judicial. Não contra a CreditOne, mas contra a Credicard. Ela que escolheu que empresas iriam “resolver” seus “problemas” de cobrança. Reuni todos os e-mails trocados com as funcionárias da CreditOne, juntamente com o comprovante de pagamento e o documento com o acordo entre as partes. Criei a petição inicial e fui até o Juizado Especial Cível, antigo Juizado de Pequenas Causas. Todo o processo foi bem rápido. No dia 5 de novembro, o processo número 2008.001.362853-1 estava pronto. Alguns dias depois e já havia data para audiência: 19 de março de 2009. Próxima quinta-feira.
Em tempo: meu nome saiu dos serviços de proteção ao crédito em fevereiro passado. Mais de 5 meses depois do pagamento efetuado. Penso que talvez possa ter ouvido errado. Mas 5 dias úteis nem rima com 5 meses. Enfim, o que importa é que quinta-feira, o Davi aqui pega o Golias. Espero que Golias não amarele nem tente de artifícios sórdidos para evitar a perda da causa.
E se você acha que acabou, está muito enganado. Ainda há outros problemas enfrentados pelo cidadão comum. Esta “parte 3″ deve ser interpretada como “parte 3 de 50″. Ou algo próximo a isso.